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Amor dos irracionais e dos racionais

 

 Em louvor dos irracionais. 

Quereis ter uma idéia do amor? 

Talvez mais sensato 

e por certo mais exato: 

contemplai os pardais, assim, 

de vosso jardim! 

 

Vêde vosso cãozinho 

e a cadelinha do vizinho! 

 

Admirai o soberbo cavalo conduzido à imponente égua 

Que, passiva, mas nisso ativa, já arreda a cauda 

para, aquecida, recebê-lo. 

 

Demorai observando o rápido, porém atencioso, coelho e sua 

formosa fêmea. 

 

Invejai os olhos chamejantes, 

os relinchos desejantes... 

Não. Não invejeis os irracionais. 

Vós, os humanos, tendes mais opcionais... 

 

Só humanos desfrutam afagos, antes e depois. 

Nenhum outro animal tem o corpo tão sensível, 

recoberto de poros de prazer, sem limite possível... 

 

Só os humanos 

todos os dias de todos os anos 

podem amar. No cio para se perpetuarem, 

fora dele para aperfeiçoarem 

esse dom da volúpia. 

 

Notai que os demais sentimentos da qualidade humana 

se amalgamam com o amor, como metais em fusão com o ouro. 

É, pois, o amor o ouro que doira vosso corpo e vosso espírito. 

 

Mas se fruís do prazer e do gozo do amor 

superiormente aos demais animais, 

agradecei e aproveitai. 

 

E lembrai que estes, embora não desfrutem 

tão generosamente dessa dádiva, no entanto, o que há de 

mais horrível nessa seara para vós, eles desconhecem. 

 

É justo que assim seja! 

É que o amor nos irracionais mera necessidade fisiológica é, 

jamais uma necessidade espiritual, existencial, como em vós. 

 

O amor, em suma, é um belo estofo, tecido pela natureza e bordado pela imaginação 

humana; mas essa beleza sempre frágil, às vezes dolorosa é... 

 

Olao (BsB, mar./1977)