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Enfim o Estado (em todos os níveis: federal, estadual e municipal) se fez presente na vida de parcela importante (pelo tamanho e pelo abandono geral) do povo brasileiro e carioca: retomou o território do domínio absoluto dos bandidos nas comunidades do Cruzeiro e do Alemão. De fato, só agora o Estado cumpriu seu dever, a sua razão de ser dar segurança, sobretudo aos mais fracos.


Enfim o Estado (em todos os níveis: federal, estadual e municipal) se fez presente na vida de parcela importante (pelo tamanho e pelo abandono geral) do povo brasileiro e carioca: retomou o território do domínio absoluto dos bandidos nas comunidades do Cruzeiro e do Alemão. De fato, só agora o Estado cumpriu seu dever, a sua razão de ser dar segurança, sobretudo aos mais fracos. Nosso orgulho que já começa a ser sentido a partir do reconhecimento externo, agora parece que também no plano interno. Todavia, a retomada daquele território é só a etapa inicial e mais penosa de uma presença estatal que precisa ser mais permanente que no nas comunidades ricas do Estado. O Governo estadual deveria, simbólica materialmente, se instalar por uma semana ou mais nesse território agora retomado para ordenar e coordenar, de perto, pelo autoridade máxima do Estado. Obras imediatas (limpeza e desobstrução dos acessos e vielas; energia elétrica e água, controle policial de todos os acessos...). Obras de uma semana/um mês: plano de iluminação moderna estratégica, construção de valas de águas pluviais, redes de esgoto, praças esportivas, posto provisórios de saúde, de assistência social e do conselho tutelar. Obras de mais um mês sedes definitivas do Estado no alto desses morros (policia comunitária, lazer e assistências social em geral, enfim adotar (como filha - mais carente - aquelas comunidades. As UPPs parecem ser uma solução tópica muita boa. Mas os bandidos dai saem para outras comunidades onde o Estado é ausente e quando todas elas forem ocupadas pelas UPPs esses bandidos atravessarão as fronteiras internas ou até externas do país.Isso sem falar na bandidagem mais recente a da venda da segurança insegura e bandida das milícias, tão bandidos e degradante para o Estado quanto os traficantes. As operações naquelas comunidades mostraram uma policia com senso profissional elogiável tanto técnica como juridicamente: a única razão para a polícia detestar os direitos humano é o desconhecimento jurídico, os tratados internacionais e leis brasileiras; a velha rixa entre as policias (sobretudo a Civil e PM) parece esta se diluindo, as disputas entre corporações policiais precisam desaparecer inclusive nos discurso: melhor será dizer a Polícia do Rio de Janeiro, ao invés de a PM ou a Policia Civil, ambas são segmentos da mesma polícia. A imprensa se irmanou a policia e compreendeu enfim seu papel relevante nessa questões: criticar ou elogiar sem perder sua função social: preservar os valores e autoridade da lei  da justiça, o Estado de Direito. De parabéns assim as autoridade cariocas! As armas da polícia vencem os criminosos, mas não o crime (esse tipo criminológico): esse só é vencido por condições sociais minimamente dignas.

As comunidades, tal como os homens, carecem ser adotadas, bem tratadas, curadas em seus males, enfim amadas. Elas precisam de espaço e tempo, bem como de amor, de boa atenção para poderem crescer fortes e saudáveis. Talvez nem as pedras dispensem cuidados mais ou menos análogos! As comunidades mais carentes material e fraternalmente são corações e mentes facilmente tomadas, alugadas e pelo menor valor possível. Uma sociedade considerada politicamente organizada (Estado) que permite que suas comunidades se degradem ao extremo, como ocorre entre nós, já não merece ser reconhecida como organizada, menos ainda como Estado, senão ajuntamento social, como as manadas e bandos. Essa desclassificação se acelera e se espalha pelo nosso Brasil cujo povo tão dócil quanto omisso, de governos tão variados quanto incompetentes ou vendidos. De fato, no Rio de Janeiro e São Paulo, cidades mais ricas e de população mais favorecidas do país é grave a degradação de suas comunidades carentes. Registre-se que as comunidades ricas também apresentam crimes e até bem violentos, mais em níveis ainda aceitáveis.

 Há décadas que muitas de nossas comunidades carentes estão abandonadas pelo resto da sociedade circundante, pelo Estado e são usadas pelos políticos populistas, pelos “contraventores-benfeitores” (que ocupam e exploram o vazio de um Estado ausente). Todas as formas de exploração tais comunidades são vitimas inconscientes ou conscientes de que não resta outra opção menos indigna. Isso tudo adoece a mente e o coração até das pedras! Já nem precisávamos dos traficantes globalizados, do crime organizado  para que essa triste e sinalizadora situação de degradação doesse em nossos olhos. Uma infecção mal curada ou não tratada é origem de mal maior e, às vezes, de cura quase inviável, sobretudo num Estado/sociedade que reflete o descaso com as dores dos mais frágeis. É uma doença moral, um mal sentimental, um atestado de desinteligência: pois a fome e a miséria só aconselham o mal. Com efeito, numa mansão ninguém pode dormir em paz  se a vizinhança não dorme por causa da fome e do abandono de todos.  Nossa sociedade já não tolera um Estado ausente que abandona seus desfavorecidos.  Agora que o ilegal, o irregular já são modas, que a ética e os princípios já parecem algo ultrapassado, que o crime e a violência, a informalidade no ganha-pão de muitos, os flanelinhas (paga ou algo de ruim pode ocorrer c/seu carro), os cobradores da paz de aluguel, os agente duplo do Estado (não só policiais, mas fiscais, lideres e até altas autoridades); agora que tudo isso já é mais a exceção e sim a regra ou quase isso. Enfim, agora que o mal é crônico, a infecção é generalizada, todos gritam, todos querem proteções e rápidas, todos ou muitos sabem exigir pena de morte, agravamentos das penas, exércitos nas ruas, mais armas mais violência contra a violência (numa odiosa corrupção da inteligência).

 Nossa sociedade não quer mais omitir diante do quadro de degradação humana e corrupção sob os olhos de todos, até porque convenientemente transfere a culpa disso para o Estado, mas nem sempre quer dividir sua agressiva opulência com os miseráveis, quiçá via caridade (às vezes mero investimento celestial: meio p/alcançar um lugar no céu! E a ética disso?). Há, entre nós, uma cultura de violência e preconceito/indiferença social cujo subproduto, dentre outros, é o crime é um deles. Há muito tempo que esse fenômeno já não é mais caso de polícia, mas de política macro, de política social (onde se insere uma consistente política criminal, prevenção real do fenômeno e não guerra pela guerra, violência pela violência). É um desserviço, um e outro mal sinalizador permitir-se que a instituição policial seja desprestigiada por falha de toda uma sociedade, de todo um Estado. Sem uma política bem planejada e especifica para essas comunidades nem a melhor polícia do mundo com todas as armas do exército mais poderoso da terra resolverá o mal que nos abate a muitas décadas1.

 Depois décadas de abandono e indiferença, ou só marketing, o mal, agora, já exige tratamento amplo e multidisciplinar, ou seja, terapia tópica de vigoroso choque de força legitima do Estado, mas bem dirigidas e bem focada (para não gerar o efeito reverso, mais danoso ao Estado e à Polícia que aos bandidos2), ainda que de mero efeito circunstancial. Mas não é só. O mal exige também, por outro lado e simultaneamente, um tratamento propriamente dito, isto é, intervenções profiláticas duradouras, policiais e, sobretudo não-policiais (o Estado deve se transferir pro tempore para as comunidades adotadas pela criminalidade); faz-se mister atuar nas causas do mal! Sucede que não há tratamento de câncer tão alastrado e insidioso que não seja a longo prazo. Contudo, os analgésicos e placebos são bem vindos posto que, se não curam (por não atacarem a causa), acalmam os sintomas/efeitos e geram um ambiente francamente favorável ao tratamento de longo curso (escola, saúde, outras presenças do Estado nas 24 horas do dia e por anos).  O que não fizemos por dever humanitário, ou no mínimo, por conveniência social, forçados, agora, faremos por dever de sobrevivência! Basta de fugir das causas e ficar só nos efeitos, na superficialidade do fenômeno que é complexo. Toda e qualquer política ou ação do Estado não pode ser um fim em si mesmo. Não é sociedade que existe para o Estado, mas exatamente o inverso. Mas nenhuma polícia (ou corporação outra) se reeduca sem que seus membros sejam revalorizados (profissional e social o que pressupõe soerguimento salarial urgente: o piso da PM no DF é quase 4 mil reais!).

 A polícia tem sido culpada pelo crescimento da criminalidade, mas aqui essa culpabilidade é nenhuma ou insignificante. A União precisa induzir, via condicionamento de verbas p/ projeto consistentes, de médio e longo prazo, Estados-membros, municípios e organizações comunitárias (do tipo dos conselhos tutelares, egressos) a investirem pesado em políticas sociais de base (escola, saúde, justiça, segurança inseridas no interior das comunidades já afetadas ou ainda potenciais), em combate à corrupção, sobretudo nos serviços públicos, em nova, mas efetiva (e mais compatível com nosso Estado democrático de direito) formação policial (menos bélica, mais sócio-jurídica e de inteligência). Aqui é decisivo não se confundir causa e feito. Política de segurança pública é atuação estatal (embora indispensável a participação da sociedade civil) visando a proteção da coletividade, via a ordem pública, que é preventiva enquanto autoridade reconhecida e admitida, de resto é atuação muito mais nos efeitos que nas causas. Já política criminal é atuação estatal (coordenando a sociedade) visando manter controlados os fatores/causas criminogênicas (ações sociais de base, polícia aqui é detalhe). A Segurança nacional passa, irremediavelmente, pela efetividade da segurança pública.

[1] Registre-se que no Vietnã, na África do Sul, no Iraque de hoje, as forças armadas absolutamente mais poderosas e com toda a violência possível não lograram vencer a cultura da resistência pobre e frágil. Só uma base psicossocial sólida é vencedora nesses quadros. Aqui a força vence batalhas, mas não vence essa guerra!

[2] Como uma foto de dois sargentos PM do Rio de Janeiro (graduados da Corporação!) carregando um corpo de bandido, mas ainda humano num carrinho de obra. Foto que circulou o mundo como exemplo do despreparo de agentes do Estado (que mancharam a bandeira do RJ e a farda da PM). Para a Polícia, pior não poderia ter acontecido! Tal atitude mostra bem a perda da razão de ser desses policiais, a corrupção no original aristotélico. Além de atestar a absoluta insanidade profissional do sargento. A polícia, agente da civilização, não pode se perder na sua própria razão de ser! Todo policial deve repetir todos os dias pela manhã o mantra de seu mister profissional: “dar segurança e civilizar”.